Quanto mais velho eu fico, mais saudades tenho de quando era criança.
De quando jurava que havia um funcionário anão dentro do caixa eletrônico.
De quando palavrão era "Caracas" ou sua sonora derivação "Carácolis!"
De quando acreditava que havia uma lua e um sol para cada cidade.
De quando inconstitucionalissimamente era a maior palavra do mundo.
De quando minha mãe deixava eu abrir o yakult no meio do supermercado.
Deus sabe como queria passar por isso de novo. Não do mesmo jeito, claro.
Dessa vez daria uma atenção especial às coisas antes sem importância.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.
Ai que saudade daquele tempo.
Saudade onde tudo era tão bom.
Saudades onde a paz reinava em nossos corações.
Saudade de sair de casa escondido da mãe.
Saudade de brincar na rua sem ter medo de nada.
Saudade de tudo, da minha boa e velha infância.
Tempos esses que não voltam mais.
Tempos em que fui feliz e não sabia.
Tempo aquele em que fui muito feliz.
Hoje sou feliz, mais como da saudade daquela época boa.
Há saudade que me dá saudade...
Sentir saudade ao contrário é colocar a carroça na frente dos bois, a prorrogação antes do tempo normal, o amém antes do em nome do pai.
É o rapaz que na véspera de sua amada partir, fica em casa chorando.
Ao invés de aproveitar os últimos instantes ao lado da pessoa querida.
Mas pensando bem, não é algo tão difícil assim de se entender.
Porque sinceramente, acho que nada deve doer tanto quando a consciência de se dar o último beijo, o último abraço ou fazer a última declaração de amor.
Kallyne Ramalho de Melo



